Boa leitura (28) - À escrivaninha com Manguel
Novos ensaios do autor argentino-canadense
Manguel, ao lado, em foto de Philippe Matsas: “O mundo é uma biblioteca de signos, um arquivo de textos misteriosos, uma galeria de imagens incitantes”
Foi, com certeza, ao percorrer as extensas prateleiras na solidão noturna de sua biblioteca — erguida a partir do muro de um antiquíssimo celeiro numa aldeia francesa — que o escritor argentino naturalizado canadense Alberto Manguel mergulhou em reflexões e elaborou as considerações deste “À Mesa com o Chapeleiro Maluco — Ensaios sobre Corvos e Escrivaninhas”.
Os 27 textos foram possivelmente escritos de manhã, como é seu costume, revelado em “A Biblioteca à Noite”, de 2006, ano, aliás, em que publicou também estes ensaios sob o título “Nuevo Elogio de la Locura”, numa alusão à obra do filósofo holandês Erasmo de Roterdã (1466-1536), para quem a loucura é “o alegre extravio da razão”.
A “loucura” tratada por Manguel, porém, nada tem a ver com a que foi analisada pelo pensador medieval e a primeira pista são as epígrafes e ilustrações dos ensaios, grande parte retirada de “Alice no País das Maravilhas” e “Alice através do Espelho”, de Lewis Carroll. Ela está ligada à mais pura criatividade artística, ao mundo onírico, ao nonsense, à literatura — tudo isso organizado pelo que chamamos de cultura —, embora o prefácio, feroz, convide o leitor à lucidez diante do mundo atual — com seu consumismo desenfreado, a destruição ambiental, a corrupção política, o fanatismo religioso e tantos outros problemas.
Há, ainda, outros dois ensaios — “Como Pinóquio Aprendeu a Ler” e “A Aids e o Poeta” — nos quais, ao tratar de seu tema preferido, a leitura, o autor aborda, no primeiro, questões educacionais e, no segundo, a doença, a crueldade e a ganância capitalista.
De resto, retoma temas que fizeram o deleite de muitos leitores em “Uma História da Leitura” (1996), “Os Livros e os Dias” (2004) e “A Cidade das Palavras” (2007), entre eles uma história do ponto final e outra da página. Discute, ainda, assuntos como genialidade, ambição, sucesso, falsificações literárias — a começar por um poema “em estilo abominável” atribuído a Jorge Luis Borges que até hoje circula pela internet — e dedica textos aos escritores que admira desde sempre, como Júlio Verne, Robert Louis Stevenson, Conan Doyle, H.G. Wells, Richard Burton e Alejandra Pizarnik.
A “leitura” da obra de Van Gogh e a da impressionante catedral da Sagrada Família, em Barcelona, projetada por Antoni Gaudí, também ocupam algumas páginas. Afinal, segundo Manguel, “tal como o reconhecemos desde o momento em que nascemos, o mundo é uma biblioteca de signos, um arquivo de textos misteriosos, uma galeria de imagens incitantes, algumas arbitrárias ou casuais, outras deliberadamente criadas, que sentimos dever decifrar e ler”.“À Mesa com o Chapeleiro Maluco” - Alberto Manguel - Companhia das Letras, 248 págs., R$ 45,00Publicado no caderno "EU&Fim de Semana" do jornal "Valor" em 19/6/09
Boa leitura (27) - Todos os caminhos levam a Paris
A “capital dos parísios” em obra monumental
Pont Neuf, a "Torre Eiffel do Ancien Régime”: “Você já viu Paris em imaginação — e provavelmente passou a amá-la”, escreve historiador
Da antiga Lutécia à atual Paris, com uma passagem pela pré-histórica e enigmática Bercy. A “capital dos parísios”, como a chamou o imperador romano Juliano em 358, pulsa em constante evolução — daí ganhar, como um ser vivo, uma “biografia” do historiador inglês Colin Jones, não uma simples história.
Professor na Universidade de Londres Queen Mary e especialista na França, Jones escreveu esta obra monumental não para seus colegas, mas para as pessoas que, a exemplo de milhões de outras ao longo dos séculos, são fascinadas pela Cidade Luz, conhecendo-a de perto ou não. Pois, como registrou o escritor italiano Edmondo De Amicis, em frase usada como uma das epígrafes do livro, “nunca vemos Paris pela primeira vez; sempre a vemos de novo” — de tanto que ela foi descrita, retratada e evocada em romances e outros livros, pinturas, músicas e, mais recentemente, filmes.
“Durante séculos, Roma e Londres atraíram hinos e louvores, mas também causaram bastante desapontamento e desilusão”, escreve o historiador. “Nova York pareceu ganhar importância apenas no século XX. Se você quiser, pode conhecer Nápoles e morrer, mas não precisa ver Paris com os próprios olhos, pois, como explicou De Amicis, você já a viu em imaginação — e provavelmente passou a amá-la.”
Autor do elogiado “The Great Nation: France from Louis XV to Napoleon”, Jones põe os leitores em contato com dois mil anos de história parisiense em ordem cronológica e linguagem clara e fluente. Passam diante dos olhos as paisagens antigas e atuais dessa cidade que se espraiou em espirais a partir de seu coração, a Île de la Cité, chegando aos 20 “arrondissements” de hoje, circundados desde os anos 60, por sua vez, por um “boulevard périphérique”. Nesse espaço se desenrolaram guerras, revoluções, manifestações como a de maio de 1968, mas também se lançaram e ainda se lançam ideias, modas, movimentos culturais e científicos propostos tanto por franceses como por estrangeiros que adotam a cidade e são adotados por ela.
Assim, vários fatos e personalidades ganham destaque em janelas cinza abertas em meio aos capítulos. Nelas figuram temas como a vida do pouco lembrado Robert de Sorbon, fundador da célebre Sorbonne; as modificações por que passou o Louvre; a construção da Pont Neuf, “a Torre Eiffel do Ancien Régime”, e da própria torre; a atuação de Rose Bertin, estilista de Maria Antonieta; e o fascínio dos americanos por Paris simbolizada pela figura de Josephine Baker, que cantava “J’ai deux amours, mon pays et Paris”.
Ao final, e admitindo ser praticamente impossível dar conta de uma história completa, Jones fala do futuro de Paris, de problemas que ela vem enfrentando e dos projetos para este século. Ilustrações em preto-e-branco, mapas, glossário, dados sobre prédios característicos e a população — hoje de pouco mais de 2 milhões de pessoas — e guia bibliográfico completam a edição. Bon voyage!“Paris: Biografia de uma Cidade” - Colin Jones - L&PM, 592 págs., R$ 94,00 Publicado no caderno "EU&Fim de Semana" do jornal "Valor" em 5/6/09
Mora Fuentes, a fábula de um rumo

José Luis Mora Fuentes
(Valencia, España, 9/10/1951 - Campinas, Brasil, 13/6/2009)
"As coisas sem conta que se acumulam por toda uma vida eu as perdi em algum lugar. Agora em mim, apenas um desejo antigo de finitude. Nem por isso o tempo à minha frente deixa de se fazer extenso desordenado. Tento me convencer que sempre surgirão novas possibilidades. E é por isso que manhoso, inventariando ilusões, oposto à verdade, aguardando espantos, exausto sim, como quando chegamos ao mais alto do monte que subimos, extraviado dos homens, naufragando impune nas invenções da vida, aqui estou. E pela milésima vez eu recomeço e recomeço e me refaço."
(in "Fábula de um Rumo" - Mora Fuentes, Moderna, 1980)
Foto: Mora Fuentes em janeiro de 1991 na Casa do Sol, em Campinas - álbum de família
Boa leitura (26) - Um outsider corroído pela fome
Obra mais célebre de Knut Hamsun é reeditada
Faminto, oscilando entre o delírio e a razão, sensível e com todos os sentidos exacerbados por dias e dias de jejum forçado, um jovem escritor vagueia pela Oslo do fim do século XIX (ainda chamada Cristiânia) em busca de realização. Algumas vezes consegue um pouco de dinheiro escrevendo artigos para um jornal, mas no restante do tempo vive na miséria. Vai empenhando aos poucos até a roupa do corpo para obter uns trocados e o único e velho cobertor de que dispõe lhe foi emprestado por um estudante de teologia. Não tem amigos, nem mulher, nem família, ao que tudo indica. E muito raramente consegue o apoio de alguém.
Essa é a triste vida do personagem mais famoso do Nobel de Literatura de 1920, o norueguês Knut Hamsun (1859-1952), em “Fome”, que ganha reedição com a tradução de ninguém menos que Carlos Drummond de Andrade, feita nos anos 60 para a “Coleção Prêmio Nobel”, da editora Delta.
Escritor de quase 40 livros, mais conhecido no Brasil a partir da década de 40 — quando saíram “Um Vagabundo Toca em Surdina” e “Frutos da Terra”, entre outros —, e analisado agora a distância, Hamsun foi um modernista de primeira hora.
Já em 1890, quando “Fome” foi lançado, escolheu um estilo cuja criação mais tarde lhe seria atribuída, o do fluxo de consciência, na tentativa de descrever fielmente ao leitor as sensações físicas e psíquicas do personagem. Este é um autêntico outsider, um homem que mais sonha do que age e às vezes mostra um comportamento nos limites da loucura. O autor, porém, não permite que ele perca a dignidade ou se afunde na depressão e acaba por deixar uma porta aberta para a esperança.
Com fortes tintas autobiográficas, o romance mostra também as dificuldades de sobrevivência daqueles que optam por se dedicar apenas à literatura — um ofício que, além de normalmente ser mal valorizado, requer um tempo de trabalho muito diferente do necessário à maioria das profissões.
O próprio Hamsun, aliás, é um capítulo à parte. Teve uma vida conturbada, cheia de aventuras, na Europa e nos Estados Unidos. De família pobre, não frequentou escolas e exerceu profissões das mais diversas, tais como lenhador, marinheiro e jornalista. Gostava de ler e aos 18 anos conseguiu publicar seu primeiro livro, “Den Gaadefulde” (O enigmático). À semelhança de seu personagem, também parecia um tanto louco, além de controvertido e excêntrico. Conta-se que no dia em que recebeu o Nobel perdeu o cheque no meio do caminho para o hotel.
Quando a Alemanha invadiu a Noruega na Segunda Guerra, não hesitou em apoiar Hitler e presenteou seu ministro da Propaganda, Josef Goebbels, com nada menos que sua medalha do Nobel. No pós-guerra foi preso por suas ideias políticas e internado numa clínica psiquiátrica. Passou por um período de ostracismo, mas em 1949, aos 90 anos, publicou um livro defendendo sua posição política e voltou a ter sucesso.
“Fome” - Knut Hamsun - Geração, 176 págs., R$ 29,90
Publicado no caderno "EU&Fim de Semana" do jornal "Valor" em 15/5/09
Boa leitura (25) - Uma obra clássica sobre o modernismo
O historiador Peter Gay faz um estudo definitivo do movimento
Modigliani (à esq.) e Picasso com o crítico de arte André Salmon em frente do Café de la Rotonde, em Paris - a foto foi tirada por Jean Cocteau em 12 de agosto de 1916
“É assim que se inicia o modernismo, não com um lamento, mas com uma forte emoção”, escreve Peter Gay, historiador alemão radicado nos Estados Unidos, referindo-se à poesia de Charles Baudelaire, para ele “o primeiro herói” do estilo, nesta obra monumental, possivelmente definitiva, sobre um movimento artístico abrangente, rico e duradouro, que mudou o modo de a humanidade tratar a arte e começou muito antes do que ensinam na escola.
Seu objetivo “não é montar um amplo catálogo de todas as áreas e grandes figuras do modernismo, e sim examinar sua presença na cultura e descobrir, se possível, se elas se aglutinam numa mesma entidade cultural”, como diz no prefácio. Também ali ele revela que suas interpretações partem de uma perspectiva freudiana; afinal, Freud era a vanguarda da medicina da época. “A técnica psicanalítica de incentivar a livre associação em seus pacientes era o equivalente do pintor impressionista saindo ao ar livre ou do compositor modernista abandonando os bemóis e sustenidos tradicionais”, justifica o autor de “Freud: uma Vida para o Nosso Tempo” e “A Educação dos Sentidos”.
O historiador entende que o estilo começou a aparecer nos anos 1870 — portanto, engloba o impressionismo, na pintura, e o simbolismo, na literatura —, e trata seus defensores já como modernistas, por sua atitude contestadora da estética, da moral e do comportamento de então e suas propostas artísticas inovadoras, daí a “heresia” do subtítulo da obra.
Antes de mergulhar nos detalhes desse imenso período, agrupados em três partes — “Fundadores”, “Clássicos” e “Finais” —, Gay escreve sobre o “clima de ideias, sentimentos e opiniões” vigente em especial em Paris, esboçando um painel da situação socioeconômica, política e até religiosa que vai de meados do século XIX até a década de 60.
“As obras modernistas só podem ter surgido num estágio avançado da civilização ocidental, numa época em que certos hábitos e atitudes sociais funcionavam a seu favor”, explica. Foi um fenômeno urbano e de expansão intimamente ligada à da economia e, além disso, bancado pela elite burguesa, embora destinado justamente a chocá-la.
Depois da contextualização, Peter Gay se aprofunda em cada área: pintura e escultura; literatura; música e dança; arquitetura e design; teatro e cinema. Todos os grandes criadores num período que cobre cerca de cem anos merecem sua atenção, entre os quais Monet, Gauguin, Duchamp, Picasso — cuja definição para a arte moderna, “uma soma de destruições”, ele adota.
Já o capítulo dedicado à literatura gira em torno de Henry James, James Joyce, Virginia Woolf, Marcel Proust e Franz Kafka. “Ninguém forçou tanto os limites do costumeiro como eles — a não ser os compositores modernistas”, argumenta. Os músicos de vanguarda daquela época, aliás, continuam a sê-lo, Gay afirma, já que até hoje não fazem parte da corrente estética dominante, como ocorreu com a pintura e a literatura.
Assim, Arnold Schoenberg e Igor Stravinski, os grandes do século XX, ao lado de “titãs menores” como Alban Berg e John Cage, continuam a ser ouvidos por uma pequena elite. Já em relação à dança, ele dá relevo à parceria Stravinski-George Balanchine e à coreógrafa Martha Graham, “a incontestável grã-sacerdotisa da dança moderna”.
Em termos de arquitetura e design, sua atenção se detém em Frank Lloyd Wright, Mies van der Rohe, Le Corbusier e na Bauhaus.
Há ainda o teatro, assolado pelas loucuras de Alfred Jarry e pelas inovações radicais de August Strindberg. Embora haja objeções quanto à inclusão do cinema no espectro modernista, Gay não deixou de fora a revolução que esse meio representou e analisa sua história.
Como se ainda não bastasse, o autor dedica a parte final à perseguição política de direita e de esquerda sofrida pelos modernistas, que os levou a trocar a Europa pelos EUA, onde tudo parece ter terminado, com a ascensão da pop art e o crescimento da indústria cultural.
Ele duvida, no entanto, desse fim. E abre um debate sob o título “Vida após a morte?” Pois vê indícios de um renascimento modernista na obra literária de ninguém menos que Gabriel García Márquez e na arquitetura de Frank O. Gehry, entre outros. Os argumentos para essa apaixonante discussão estão exatamente nas páginas deste livro.
“Modernismo — O Fascínio da Heresia: de Baudelaire a Beckett e mais um pouco” - Peter Gay - Companhia das Letras, 600 págs., R$ 64,00
Publicado no caderno "EU&Fim de Semana" do jornal "Valor" em 17/4/2009
Boa leitura (24) - Um jovem catalão em Paris

O fascínio que Paris exerce sobre artistas e escritores não tem fim. O catalão Enrique Vila-Matas (ao lado no "exílio" parisiense, em 1974, imagem pinçada de seu site) também não ficou imune a essa sublime obsessão. Seu início de carreira na capital francesa faz o deleite dos leitores neste autobiográfico “Paris não Tem Fim”, título roubado de um capítulo de “Paris É uma Festa”, escrito por um ídolos de juventude do escritor, Ernest Hemingway. Nessas memórias, publicadas depois de seu suicídio, o americano escreve sobre o período em que também lá viveu, quando era “muito pobre e muito feliz”. Irônico, Vila-Matas resolveu escrever sobre seu auto-exílio de dois anos, na década de 1970, quando “era muito pobre e muito triste”.
A ironia, aliás, é a tônica da obra, construída na forma de uma conferência de três dias. Nela, o escritor nascido em 1948 em Barcelona conta como vivia no sótão que alugou na casa de Marguerite Duras, para onde levou escrivaninha, cadernetas, dois lápis, um apontador e uma máquina de escrever, pronto a compor o livro “A Assassina Ilustrada”.
A própria água-furtada tem certo charme histórico: antes dele, abrigou um travesti chamado Amapola, uma atriz búlgara e até o futuro presidente francês François Mitterrand, que se refugiou lá por uns dias, durante a Segunda Guerra. O protagonista pode viver da mesada do pai, mas freqüenta festas, cafés e reuniões com muita gente do meio intelectual e artístico local, sejam franceses ou estrangeiros. Muitos lhe vêm por meio de Marguerite, que, aliás, põe nas mãos do rapaz uma apostila sobre como escrever um bom romance que ele tem dificuldades em seguir à risca. Esforça-se não só para se tornar um escritor, mas para viver como um deles e relata que, ridiculamente, fazia pose de intelectual, fingindo ler, à mesa dos cafés da Rive Gauche, obras importantes e de autores malditos.
Trata-se de um “escritor de escritores e sobre escritores”, como bem observa Cassiano Elek Machado na apresentação da obra. Basta ler os altamente recomendáveis “Bartleby e Companhia” e “O Mal de Montano”, também publicados pela Cosac Naify. Autor de 17 livros e detentor de prêmios literários importantes, como o Ciudad de Barcelona (2001), o Médicis (2003) e o da Real Academia Española (2006), Vila-Matas continua fiel a Paris, que visita entre quatro e cinco vezes por ano.
Em recente entrevista, ele contou que durante muito tempo ficou longe da cidade, mas agora recobrou a Paris que havia perdido, assim como a juventude, ao dedicar-se a este livro. “Foi uma grandíssima idéia ironizar minha juventude. O livro me foi de uma utilidade imensa, porque consegui resolver todo problema de frustração ou de nostalgia. E, mais que isso, eu e Paula de Parma [sua mulher] sempre planejamos viver em Paris. Quando estamos lá, nos sentimos em casa. Tenho a sensação de jamais ter me mudado dessa cidade.”“Paris não Tem Fim” - Enrique Vila-Matas - Cosac Naify, 248 págs., R$ 45,00Publicado no caderno "EU&Fim de Semana" do jornal "Valor" em 29/2/2008
Boa leitura (23) - Uma literatura de invenção e memória

Lygia Fagundes Telles tem edições renovadas pela Companhia das Letras
Três meninas que nasceram na mesma casa que três mulheres de três PPPs estão de volta. Lorena, Lia e Ana Clara são as protagonistas de “As Meninas”, terceiro dos quatro romances de Lygia Fagundes Telles, lançado em 1973. Só para esclarecer o “parentesco”: em 1977, o segundo marido de Lygia, o crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes, publicou sua primeira e elogiada obra de ficção, “Três Mulheres de Três PPPs”. Os textos foram escritos no apartamento do casal, em Higienópolis, São Paulo.
Com “As Meninas” (R$ 39,00), “Antes do Baile Verde” (contos, 1970, R$ 34,00) e “Invenção e Memória” (contos e reminiscências, 2000, R$ 32,50), a Companhia das Letras dá início à republicação de toda a obra da premiada escritora paulistana, imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), sob a coordenação de Alberto da Costa e Silva, Antonio Dimas, Lilia M. Schwarcz e Luiz Schwarcz. São edições revistas pela autora, com novos posfácios, depoimentos tanto dela quanto de outros escritores e intelectuais, biografia e um projeto gráfico de Warrak Loureiro que inclui delicadas capas com detalhes de obras de Beatriz Milhazes.
“As Meninas”, sucesso de público e crítica, se passa naqueles tempos que, felizmente, já vão longe: de terror, cerceamento da liberdade e arbitrariedade política. A história se passa por volta de 1969, ano do famoso sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, num pensionato católico para moças estudantes.
As personagens trazem em si traços sociais bem representativos da época: Lorena é uma moça sensível e sonhadora da classe média-alta, virgem e obcecada por um homem casado; Lia é nordestina, filha de um ex-nazista e uma baiana, idealista e militante de esquerda, ao lado do namorado, que está preso; Ana Clara é uma bela modelo, vem de família paupérrima e imagina que subirá na vida quando se casar com seu noivo rico — enquanto isso não acontece, passa os dias se drogando e fazendo sexo com o namorado traficante.
Por sua linguagem e estruturas inovadoras na literatura brasileira da época, o livro consagrou Lygia definitivamente também como grande romancista — ela já o era no gênero conto. Além disso, revelou uma autora ousada. No auge da ditadura, sob o governo de Garrastazu Médici (1968 a 1974), ela inseriu no romance o primeiro depoimento de tortura de um preso político, escamoteado na fala de uma personagem. Indagada sobre isso, perguntou: “Como eu poderia escrever um romance morno em pleno ano de 1970? Comecei a planejar o texto em 1970. Somos testemunhas e participantes deste tempo e desta sociedade com todos os seus vícios. E raras virtudes”.
O interessante posfácio do escritor Cristóvão Tezza contextualiza o romance no Brasil de então, mas ao fim conclui: “Apesar da presença da chama política, será mesmo a questão sexual e suas fronteiras o centro pulsante do livro inteiro”.
Já nos 18 contos de “Antes do Baile Verde”, o mal se instala sem alarde, como aponta o professor de literatura Antonio Dimas no posfácio, “e vai deglutindo, aos poucos, o que de saudável ainda restava na constituição psicológica dos personagens”. Estes transitam em meio a situações sobrenaturais, à solidão, a conflitos amorosos, à corrosão dos desejos, a situações que de um jeito ou de outro causam fissuras interiores irreversíveis.
Fina observadora da psicologia humana, Lygia é também mestra em extrair material literário do microcosmo cotidiano. Seu traço saliente, ressalta o professor, é uma “inclinação para a microscopia”. Bem-humorado, Dimas compara sua escrita ao comportamento felino — discreto, sedutor, mas pronto para um ataque com unhas afiadas, quando provocado — e adverte o leitor: “Fique esperto! Não confie no ron-ron de Lygia Fagundes Telles!”
Já a igualmente escritora e imortal da ABL Ana Maria Machado, aponta a “linguagem econômica, quase pontilhista, de frases curtas”, em posfácio a “Invenção e Memória”. Nesse livro, composto por episódios autobiográficos e histórias com forte apelo ao sobrenatural, “a invenção se intromete de modo inesperado, acrescentando novos significados à placidez da rotina”, nota Ana Maria.
Assim, anjos e vampiros assombram alguns relatos, enquanto a discussão com Paulo Emílio sobre o roteiro para o filme “Capitu”, inspirado em “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, em meio a um lanche acompanhado de vinho; um relato poético sobre a visita à Igreja de São Francisco, na Bahia; e outro sobre o constrangimento causado por pedintes e vendedores de bugigangas nos cruzamentos das grandes cidades dão conta da vida “real” da escritora, traduzida para vários idiomas e agraciada com muitos prêmios, entre eles quatro Jabutis e o importante Camões, recebido em 2005 pelo conjunto da obra.
“As Meninas”, “Antes do Baile Verde” e “Invenção e Memória” - Lygia Fagundes Telles - Companhia das Letras, 304, 208 e 144 págs.
Publicado no caderno "EU&Fim de Semana" do jornal "Valor" em 8/5/2009
Boa leitura (22) - A gula literária de Hornby
Nick Hornby: “Nada de mau lhe acontecerá se você não ler os clássicos”Apaixonado por livros, futebol e rock, Nick Hornby manifesta total solidariedade a todos aqueles que não abrem mão do prazer da leitura, sentem-se um pouco culpados ou enraivecidos quando o trocam por outra atividade, acham que uma vida é pouco para ler tudo o que querem, são incapazes de sair de mãos vazias de uma livraria (culpando-se pelo dinheiro gasto) e muito dificilmente têm estantes suficientes.
Além disso, defende a liberdade de cada um ler o que quiser — de um best-seller ou um romance em quadrinhos a um clássico — e combate a obrigatoriedade da leitura de certas obras na escola ou a insistência por parte da família e de conhecidos.
O bom humor e ironia de Hornby estão presentes nestes 28 artigos que ele escreveu entre setembro de 2003 e novembro de 2006 na sua coluna “Stuff I’ve Been Reading” da revista britânica “The Believer”, da qual se despediu em setembro do ano passado.
Não se trata, no entanto, de um volume de resenhas. O subtítulo, a propósito, explica bem a intenção: “O Diário de Nick Hornby: um Leitor Que Perde as Estribeiras, mas nunca Perde a Esperança”. Parece mesmo um diário ou a correspondência trocada entre amigos que adoram livros, o que não exclui um pouco de crítica literária e inclui muito do cotidiano de Hornby, seu estado de espírito e certas escolhas difíceis de fazer — mergulhar numa biografia de Matisse ou assistir ao campeonato de futebol?, por exemplo.
O autor de “Alta Fidelidade”, “Febre de Bola” e “Uma Longa Queda”, entre outros, achou divertida “a ideia de escrever sobre a experiência da leitura, ao contrário de escrever sobre livros isolados”. Com o convite para colaborar com a revista acabou por colocá-la em prática.
Preocupado em dar notícia do que entra na sua biblioteca, o autor inicia cada artigo com uma lista dos livros que comprou e recebeu e outra dos que efetivamente leu naquele mês. Em julho de 2004, chega a escrever uma nota de rodapé sobre a lista: “Comprei tantos livros este mês que chega a ser obsceno, e não estou listando todos eles: esta é uma seleção.”
Que livros constam dessas relações? Os mais variados, grande parte ainda não traduzida para o português, entre lançamentos, clássicos — ele, enfim, consegue ler “Cândido”, de Voltaire, por exemplo, e reler “David Copperfield”, do seu querido Charles Dickens —, muitas biografias e muitos livros de cartas entre escritores, obras sobre política, esportes (é torcedor fanático do time de futebol Arsenal), autismo (é pai de um autista) e até autoajuda (para parar de fumar), além de dois audiobooks.
Hornby mostra, ainda, preocupação com a continuidade do hábito da leitura de livros nestes tempos de internet. “Se quisermos que a leitura sobreviva como forma de lazer — e há estatísticas que mostram que não há como garantir isso —, temos então de promover as alegrias da leitura e não os benefícios (dúbios)”, fazendo uma referência aos livros “obrigatórios”.
Ele soa como um subversivo do universo literário diante daqueles que se sentem obrigados a ler determinada obra para se sentir mais inteligentes ou cultos: “Por favor, se você estiver lendo um livro simplesmente sacal, coloque-o de lado e vá ler outra coisa, da mesma forma com que pegaria o controle remoto caso não estivesse gostando de um programa na TV.” E tranquiliza mais adiante: “Nada de mau lhe acontecerá se você não ler os clássicos ou os romances que ganharam o Booker Prize deste ano.”
“Frenesi Polissilábico” - Nick Hornby - Rocco, 264 págs., R$ 33,00
Publicado no caderno "EU&Fim de Semana" do jornal "Valor" em 9/4/2009
Las Mujeres (7) - Delmira

Engarzado en la noche el lago de tu alma,
diríase una tela de cristal y de calma
tramada por las grandes arañas del desvelo.
Nata de agua lustral en vaso de alabastros;
espejo de pureza que abrillantas los astros
y reflejas la cima de la Vida en un cielo...
Yo soy el cisne errante de los sangrientos rastros,
voy manchando los lagos y remontando el vuelo.
(Delmira Agustini - Montevidéu, 24/10/1887-6/7/1914-Uruguai, in Poesía, Casa de las Américas, La Habana, 1988)
Boa leitura (21) - O amálgama ficcional de Levi

Autor italiano glorifica o trabalho
Quando se fala do escritor judaico-italiano Primo Levi (1919-1987), de imediato vem à mente a palavra Auschwitz, pois ele é sobretudo lembrado pelos livros que escreveu contando as agruras que teve de enfrentar nesse campo de concentração polonês durante a Segunda Guerra, como “A Trégua” e “Se não hoje, quando?” Este “A Chave Estrela”, no entanto, nada tem de guerra, não fala do holocausto dos judeus nem de sofrimentos terríveis e destruição. Trata, na verdade, de construção, do engenho humano, sua capacidade e seu empenho em superar o próprios limites, e do prazer de vencer desafios profissionais.
Químico especializado em vernizes, Levi glorifica, neste romance escrito em 1978, o trabalho anônimo, cotidiano, bem-feito, por meio da figura de Tino Faussone, competente montador de torres, pontes, gruas, guindastes, que encontra num país do Leste Europeu e de quem ouve dezenas de histórias.
“Se excluirmos os instantes prodigiosos e singulares que o destino nos pode dar, amar o próprio trabalho (o que, infelizmente, é privilégio de poucos) constitui a melhor aproximação concreta da felicidade na terra: mas esta é uma verdade que não muitos conhecem”, escreve perto do meio do livro.
Faussone encarna a liberdade de escolha, de ir e vir pelo mundo, de comprazer-se com o resultado das instalações de que participa e tem como coadjuvantes os elementos com que a espécie humana sempre teve de lidar — água, terra, fogo, ar —, além das ferramentas e dos materiais.
É um operário exemplar, um herói que, faça muito calor ou muito frio, sob neve ou vento forte, literalmente põe as mãos à obra e representa as realizações concretas e visíveis do homem, em contraste com a sutileza dos procedimentos microscópicos do químico de vernizes e suas delicadas substâncias, assim como com a literatura. Pois Faussone não se satisfaz apenas com o fazer. Ele também quer contar o que fez. E o autor lhe promete que vai tranformar suas grandiosas narrativas em livro.
Ouvinte atento, o químico fica totalmente subjugado ao jorro desordenado de palavras do montador, aos relatos entrecortados por lembranças da infância, da juventude e por muitos ditados populares, às idas e vindas da fala coloquial sem amarras. Frear esse discurso é “como parar uma onda de ressaca”, observa Levi.
A linguagem é clara, repleta de termos técnicos e científicos (devidamente explicados), e a estrutura muito bem aparafusada com a emblemática chave estrela — com o perdão do trocadilho. No entanto, há espaço também para o humor, a ironia e, até, a poesia, amalgamando, como queria Levi, a cultura científica e a literária.
“A Chave Estrela” - Primo Levi - Companhia das Letras, 200 págs., R$ 39,50
Publicado no caderno "EU&Fim de Semana" do jornal "Valor" em 13/3/2009
Num abril já longínquo

Guardo ainda, como um pasmo
Em que a infância sobrevive,
Metade do entusiasmo
Que tenho porque já tive.
Quasi às vezes me envergonho
De crer tanto em que não creio.
É uma espécie de sonho
Com a realidade ao meio.
Girassol do falso agrado,
Em torno do centro mudo
Fala, amarelo, pasmado
Do negro centro que é tudo.
18/4/1931
(Fernando Pessoa in Poesia - 1931-1935, Companhia das Letras, 2009)
Boa leitura (20) - Prosa delicada e suave como a seda
Alessandro Baricco conta uma história cheia de silêncio e sombras A suavidade da seda permeia este relato, escrito por um dos mais importantes autores italianos contemporâneos. Tecida com delicadeza, com espaço para o silêncio, as sombras, as cores esmaecidas — como nos ambientes japoneses —, a prosa lírica de Alessandro Baricco (nascido em 1958 em Turim) capta a poesia cotidiana numa trama simples.
A história, passada no século XIX, é de Hervé Joncour, que abandona sua carreira militar aos 24 anos para se tornar negociante de bicho-da-seda em Lavilledieu. A cidade francesa é uma pequena produtora de seda e se vê ameaçada por uma praga que ataca a criação dos bichos no local. Graças à disposição de Joncour em viajar para o Japão, onde não há essa epidemia, a cidade enriquece com a sericicultura.
A viagem — longuíssima — é uma aventura para o rapaz, que a princípio nem sabe onde fica o Japão, para ele “o fim do mundo”. Lá, torna-se aliado de um grande fornecedor e fica fascinado pela mulher dele, silenciosamente sedutora: “Seus olhos não tinham o corte oriental, e o rosto era o rosto de uma menina.” O livro é também a história dessa relação tácita, que pode trazer conseqüências inesperadas.
De aparência tranqüila, mas por dentro perturbado por essa paixão impossível, o personagem, com o passar do tempo, acaba por achar um sentido para a existência, por meio da contemplação, algo tão ligado à cultura oriental. “Seda” é cheio de evocações, de aproximações com esse universo — lago, vento, revoadas de pássaros, tilintar de sinos de ouro minúsculos, como nas gravuras. Uma leitura que traz serenidade.A trama foi filmada em 2007 por François Girard, com Keira Knightley e Michael Pitt como protagonistas. Não dá para entender por que no Brasil seu DVD, lançado no ano passado, recebeu o título de "Paixão Proibida" e não apenas, como nos outros países, "Seda". Enfim, se você quiser alugá-lo, já sabe...
“Seda” - Alessandro Baricco - Companhia das Letras, 128 págs., R$ 31,00
Publicado no caderno "EU&Fim de Semana" do jornal "Valor" em 21/9/2007 e atualizado para o blog